O chuveiro na minha casa queimou... Queimou e eu desisti, não de tomar banho, apenas desisti... Fui vencido pelo acaso, mais uma vez... O cotidiano se instalou em mim definitivamente, as contas venceram, o telefone está mudo a um mês, e o computador não carrega mais vídeos no youtube. Por isso não me perguntem se eu vi o ultimo clip da Madonna. Ok. Vi... Tenho meus contatos... Mas não queiram saber detalhes. O fato é: O chuveiro queimou. Para contextualizar... Moro no sul, então um banho de água gelada “dói da flor da pele ao pó do osso”. Bom chateação resolvida com 69,90, no mercado na esquina de casa. O drama passou a ser... O chuveiro queimou e eu estou solteiro. Acho que preciso me tratar. Como eu consigo relacionar a falta da água quente, com a crise mundial. Nessas horas de crise é fácil buscar uma desgraça maior... Mas acompanhe meu raciocínio... Quinta feira de manhã nublada, o final de semana está chegando, e o Brasil está em duas finais nas olimpíadas (você ainda não sabe que seria um fracasso), o esposo acorda e vai para o banho... Volta enrolado numa toalha, pulando de frio até abrir o closet e pegar o terno, e diz: “O chuveiro queimou”,... “Ai merda”, pensaria, mas ao acordar, daria de cara com o homem da minha vida recolocando o cabide no cabideiro, pendurando uma toalha no toalete e torrando uma torrada na torradeira. Mesmo assim ainda com um leve mau humor pisaria no azulejo gelado, enquanto ele terminava de escovar os dentes. Abriria o chuveiro, e aquela ducha gelada cairia espetando o coro cabeludo. Soltaria um grito, e o máximo que ele faria seria dar uma risada amorosa, enquanto preparava a ração do Otávio (o labrador), mesmo assim continuaria reclamando: “Que vida uó”, “Que chuveiro úo”, “Que sabonete uó”... Eis que, do nada o blindex abriria e o bendito (ou como ele se chamar), estaria prontinho para um novo banho gelado com você com um sorriso moreno de dentes brancos colgate, dizendo: “Vim te esquentar”... Pronto, meia hora atrasado no trabalho, nenhuma culpa e uma ótima história para contar. Por hora um bom aquecimento a gás já resolveria.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
DIA CURTO
Oito e meia da manhã de um domingo qualquer. Não lembrava que esse horário existia aos finais, de semana. Acordei, meio sem querer. A noite passada, dormi cedo, minha conta bancária, tinha “me” decidido ficar em casa. Acordei, meio sem querer, mas acordei. No Som do rádio Maria Rita, me mandava abrir as janelas, “... Primavera quer entrar...” Antes... Ainda acendi um incenso, e decidi tirar a auto-estima da cartola. Abri a janela como o combinado... As roupas ainda secavam no varal, o ônibus passava rapidamente pelos pontos desertos. Os passarinhos cantavam, e uma pomba cagou no carro do sindico... O dia estava perfeito. Com um copo de Nescau, e a intensidade de quem olha o mar, me deparei com a paisagem urbana (que eu adoro)... Videolocadoras, farmácias, pontos de táxi, prédios altos, prédios baixos, outdoors... Outdoors... Que estranho... Mas aquele no outdoor parece o... Meus Deus... Ali na propaganda do vestibular, se parece muito... O nariz torto se parece... Meu ex namorado. Ele teve a ousadia de ficar no outdoor em frente a minha janela. Oito e cinquenta da manhã de um domingo qualquer, fechei o black out do meu quarto por mais seis meses...
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Aluga-se asas.
Resolvi escrever,... Escrever para desabotoar a minha alma. Resolvi escrever por que hoje eu nunca mais vou ver alguém. Resolvi escrever, aproveitando que ainda escorrem palavras pelos meus olhos... Resolvi escrever, por que esse domingo de sol estava nublado demais. Resolvi escrever, por que de manhã recebi a trágica notícia da morte de um amigo. Resolvi escrever, por que gritei, e nenhum som saia da minha boca. Resolvi escrever, para lamentar a dor que estou sentindo, e também para a aliviar a angustia de ter que falar alguma coisa. Resolvi escrever, por que precisei de amigos. Escrevi também por que reconheci nos meus amigos, os amigos que eu tenho. Resolvi escrever por que o dia inteiro passei de mão em mão, e fui bem acolhido. Mas escrevo também, pra relembrar a alegria de fazer uma faxina em casa com ele, e ouvi-lo cantar no banheiro. Resolvi escrever por que nunca havia dito que ele cantava mal. Escrever como quem acabou de comer a deliciosa torta de carne que vira e mexe ele decidia fazer aos domingos. Resolvi escrever para tentar entender a falta que sinto de vê-lo chorar como uma criança, e de sorrir feito um recém nascido. Escrever por lembrar dos shows que promovíamos nas tardes de marasmo aqui em casa. Escrevo também com a sinceridade de ama-lo, mesmo sendo a ultima palavra que disse a ele, uma palavra de desafeto. Resolvi escrever por que não tive tempo de voltar atrás. Resolvi escrever por que também não tenho culpa, e sei também, que ele sabia disso. Escrevo lembrando que a nossa amizade ficou abalada. Escrevo sabendo que ele fez uma escolha, mas também escrevo por que sei que tem dias que a noite é foda. Resolvi escrever porque sei que tem droga que é uma merda. Mas agora resolvi escrever para reconhecer que a imagem que ele deixou pra gente foi a melhor, a que ele queria deixar. Escrevo mesmo sabendo que não há como descrever o vazio que ele deixou. Resolvi escrever, por que enquanto andava por ruas perdidas vi em uma imobiliária simples a placa “Aluga-se asas”, o “c” do imóvel tinha caído. Escrevo querendo alugar uma asa, e ainda esse mês queria sair dessa casa. Escrevo por que o quarto que ele morava, é ao lado do meu, e há três anos atrás comíamos uma pizza e decidíamos quem ficaria com o maior. Escrevo pra lamentar o fato, e seguir adiante. Só resolvi escrever um pouco, pra tentar entender em palavras a dor que sinto no peito.
